Tiananmen/20 anos: Uma China diferente, mas Partido Comunista mantém controlo

Vinte anos depois do massacre de Tiananmen, a China está diferente, fruto de mais 20 anos de reformas e abertura, embora o partido comunista mantenha o controlo absoluto da política com a concordância do Ocidente, defende Moisés da Silva Fernandes.

Para o investigador, desde 1989, a China “desenvolveu-se muito rapidamente” e até encetou alguma “liberalização em muitos sectores da sociedade”, mas “não se alterou o controlo absoluto do Partido Comunista Chinês sob o sistema político e também não se vislumbra num futuro próximo uma alteração”.

Moisés Fernandes considera que a manutenção do Partido Comunista no poder fica a dever-se também ao “muito receio das elites chinesas, principalmente económicas e financeiras, de que o partido desapareça rapidamente e do perigo que isso pode constituir para as fortunas que entretanto foram constituídas com o beneplácito do partido”.

Por outro lado, continua, existe também a concordância do mundo ocidental que “não tem interesse algum em que haja um desmoronamento do partido comunista a governar a China porque, pelo menos, há um controlo sobre a sociedade chinesa, há uma mão-de-obra dócil e barata para as grandes empresas do ocidente poderem fazer negócios fabulosos, os chamados negócios da China na China”.

“O Ocidente e o mundo podem não gostar do ponto de vista político do regime, mas pactuam porque muitos dos seus lucros advêm do mercado chinês, de uma mão-de-obra extremamente barata e, se repararmos, o grande progresso e o grande avanço da economia chinesa devem-se aos grandes investimentos do mundo ocidental na China”, disse.

Apesar dos benefícios, Moisés da Silva Fernandes recorda que, “de vez em quando”, há um “hiato no discurso político oficial do ocidente e o que as grandes multinacionais do ocidente manifestam” quando surgem questões mais sensíveis como o Tibete, “mas depois acabam sempre por ir de acordo com as grandes empresas ocidentais, porque os grandes lucros que hoje grandes empresas da Europa fazem é no mercado chinês”.

Com as políticas externas dos Estados a ser “ditadas por interesses económicos, financeiros e comerciais”, os países olham muitas vezes para o regime chinês como o “mais adequado para um país desta dimensão e também aquele regime que garante uma administração mínima sobre as grandes cidades e que garante uma certa estabilidade social nas grandes cidades - porque nos meios rurais não há essa realidade, mas também não há grandes empresas europeias ou americanas”, disse.

Sobre os acontecimentos de Tiananmen em si, Moisés da Silva Fernandes explica que surgiram na sequência de uma “tentativa de abertura” que veio de dentro do próprio partido comunista através de pessoas como o antigo secretário-geral Hu Yaoibang, cujo funeral acabou por desencadear o movimento dos estudantes.

Depois, recorda, havia também um homem que aparece ao lado de Zhao Ziyang a falar com os estudantes na praça do centro de Pequim – Wen Jiabao, o actual primeiro-ministro.

“Zhao Ziyang acabou por cair, mas Wen Jiabao acabou por conseguir reconstruir a sua carreira e hoje é um dos mais destacados dirigentes da China e tem manifestado várias vezes formas muito particulares de intervenção no sistema”, considerou, ao salientar como exemplo a atitude de Wen Jiabao em deslocar-se de imediato para Sichuan após o sismo que assolou a província em Maio de 2008.

Além de desencadear a “excursão” posterior de toda a liderança chinesa, a visita de Wen Jiabao “contribuiu também para mudar a percepção que os órgãos de comunicação social da China tinham do próprio terramoto o que é uma alteração muito significativa porque no passado essas coisas nem chegavam a ser cobertas pela imprensa”, afirmou.

Vinte anos depois, Moisés da Silva Fernandes sustenta que a repressão aos estudantes foi uma “vitória da linha dura, uma vitória de Deng Xiao Ping”.

“Ele não era da linha dura, mas acabou por se conciliar com essa linha porque estava com muito receio de que o Partido Comunista chinês passasse por um processo algo idêntico ao que aconteceu na União Soviética”, concluiu.

 31/05/2009

Agência Lusa

 

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